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quarta-feira, 19 de agosto de 2015

2ª edição do festival Kino Beat

A segunda edição do Kino Beat aconteceu entre os dias 6 e 9 de agosto, no Teatro do Sesc Centro e no Multipalco Theatro São Pedro. O festival de música e performances audiovisuais multimídia tem a curadoria e idealização do DJ e produtor cultural Gabriel Cevallos, sendo um dos poucos no Brasil que se dedica a inovações artísticas experimentais no campo sonoro e visual. Comparado à edição de 2014, a segunda edição do Festival teve o dobro de dias e três vezes mais atrações: dez, entre nacionais e internacionais, sendo todas inéditas em Porto Alegre. 

Teatro do Sesc Centro - entre 6 e 8 de agosto

A primeira noite do Festival, no dia 6 de agosto, contou com Giuliano Obici e sua performance Laptop Coral, e com Castanha Remix, performance criada a partir do filme “Castanha” de Davi Pretto. Duas atrações distintas entre si, mas que se uniram no sentindo de apresentar ao vivo experimentos de som e imagem. 
A performance do Laptop Coral abriu a noite. Com 12 laptops no palco, as máquinas não só representavam pessoas, mas assumiam sua própria “humanidade” no momento que estabeleceram uma comunicação ruídosa, intercalada com silêncios, cores e códigos, entre elas e com o público. Giuliano não fez as máquinas cantarem como a maioria do público poderia esperar de um coral convencional: ele foi além e fez pulsar um coração em 12 laptops. 

 

Já Castanha Remix, feita especialmente para o Festival, foi gerida durante três meses por Gabriel Cevallos e Tomaz Klotzel. A performance desconstruiu o filme “Castanha”, de Davi Pretto, criando uma nova narrativa. O ator João Carlos Castanha interpretou partes do filme e improvisou textos de sua autoria. O palco foi transformado em um camarim, onde Castanha se preparava para seu número de dublagem. Enquanto isso, o artista multimídia Klotzel editava e projetava partes do filme e, com uma câmera, captava em tempo real as expressões de Castanha e as ampliava na tela. A performance se revelou uma peça de teatro multimídia melodramática, como o bolero de Tânia Alves que o artista dublou. A performance abordou a relação de Castanha com a mãe, com a morte e seus amores, sempre com seu habitual escracho, pelo qual é conhecido. A tecnologia foi a liga discreta e eficiente que conduziu esse experimento de dar vida, no palco, a um filme, criando uma nova história.

 
 

O músico gaúcho Pedro Dom, acompanhado de uma banda completa no palco, abriu a segunda noite do Kino Beat com o show de lançamento do seu primeiro disco solo. Foi a apresentação musical mais orgânica do Festival: durante uma hora, Dom fez um passeio jazzístico suave e harmônico - na sua maioria instrumental - mas com participações de dois MC's e dois cantores. Mesclou com maestria sua verve acadêmica e sua vivência de rua. Trouxe para o Festival um sentido enorme de amplitude na programação, do tamanho do seu talento.

 

Fechando a segunda noite, o artista multimídia Henrique Roscoe, também conhecido como HOL, apresentou Synap.sys, a apresentação mais densa do Festival. Um completo espetáculo audiovisual, repleto de metáforas e significados subjetivos. HOL controlava, em tempo real, som, imagem e lasers, com destaque para a guitarra midi, construída pelo próprio - com design que remetia visualmente às conexões das sinapses, que dá nome a performance. Alternando batidas retas e quebradas, atmosferas, ruídos e texturas eletrônicas, com o som futurista da guitarra e as imagens fractais, super 8 e outros grafismos, a apresentação foi uma viagem profunda nas emoções do artista mineiro.

 

A terceira e última noite do Festival no Teatro do Sesc começou com a estreia de Valmor Pedretti e Carlos Ferreira, com The Rise and Fall of Ice-Pick Lobotomy. A dupla gaúcha fez uma apresentação contemplativa e instigante: ambos tocaram guitarra, disparando samples e loops, gravando ao vivo ruídos de chaves, latas e frequências de rádio. Criaram uma aura de concerto contemporâneo no teatro, evocando o espírito de John Cage a cada som e silêncio da performance.


O alemão Frank Bretschneider, lenda da música e arte experimental, foi a última atração do Festival no Teatro do Sesc, com uma apresentação audiovisual viceral e pontente. Como um cirurgião, operou com precisão a construção de um espetáculo em que som e imagem tinham total sincronia. A parte musical dominada por interpretações próprias da música urbana global, como funk, hiphop, industrial e techno, saiam retorcidas e com um grave potente das caixas de som. Quando somadas às variações geométricas de círculos e quadrados em centenas de padrões, criaram uma viagem sinestésica eletrônica, digna de um mestre.
 

Multipalco do Theatro São Pedro - 9 de agosto


O último dia do evento aconteceu no Multipalco do Theatro São Pedro, a céu aberto. A ideia era levar para a rua um espectro amplo da produção eletrônica dançante. O DJ gaúcho Castelan, que passeou por Future Beats, house e downtempo, abriu a festa de encerramento do Festival. Logo após o francês High Wolf, que se apresentava pela primeira vez no Brasil, fez a apresentação mais inusitada do dia. Destilou padrões rítmicos complexos e sincopados e, acompanhado de sua guitarra melódica, criou um pequeno ritual afro-asiático na pista.

 

O sueco Baba Stiltz, também pisando pela primeira vez em terras brasileiras, animou a pista com uma mistura de batidas 4x4 cruas e gordas, hipnóticas e minimalistas, e outras festivas e expansivas. Todas pulsavam dos seus discos de vinil e balançavam junto com seus cabelos longos, em uma performance de palco que também fez parte do show. 

A última atração do festival foi o mineiro Zopelar. Cheio de equipamentos no palco, fez uma apresentação ao vivo de techno, uma das principais apresentações live do país. Energético, melódico, atemporal e orgulho nacional, fechou a segunda edição do Festival Kino Beat.


O 2º Festival Kino Beat foi uma realização do Sesc RS em parceria com o Kino Beat. 
Tudo isso não aconteceria sem nossos apoiadores:
Consulado Geral da França, 
Pejole

Ano que vem tem mais.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

DIEGO ABELARDO APRESENTA O PROJETO AGNOSTIC ORCHESTRA NO FESTIVAL KINO BEAT

O projeto Agnostic Orchestra Vol. 1 – Fragmentos do 8, de Diego Aberlardo, mistura samples e instrumentos em uma contradição de estudo e experimentação - que levou oito anos para ser concluído.  O resultado é complexo.

“A música eletrônica acrescenta muito na criatividade e possibilita recursos infinitos para a criação de qualquer gênero musical,  mas ainda é preciso um ser humano para controlar a máquina, e isso faz toda a diferença no resultado final. Digo que valorizo quem faz, não como faz“, comenta Abelardo.

Para entender melhor, confira nossa entrevista. E prepare-se para o Festival Kino Beat.

Como surgiu a ideia do projeto Agnostic Orchestra?
Eu já vinha experimentando sons desde 2003, calcado diretamente na intenção de produzir instrumentais de rap; os famosos “beats”. Até 2006 já tinha, de certa forma, compreendido a concepção de produção eletrônica neste campo; partindo apenas de samples e loops de bateria com variações simples, sem nenhum conhecimento musical formal, mas de total empenho na pesquisa de sonoridade.
No mesmo ano, decidi começar a estudar música formalmente e, consequentemente, me veio a ideia de registrar esse processo de desenvolvimento artístico e técnico.

O nome Agnostic Orchestra veio para ilustrar - como uma brincadeira entre orquestras religiosas e o sentido vulgar de agnosticismo ser o meio termo da fé – onde eu, buscaria um compromisso com a musicalidade, mas sempre mantendo o experimentalismo, que me fora a raiz inicial na música.

Quais foram as principais inspirações para o projeto?
O álbum Coisas, do maestro Moacir Santos, onde cada música leva o título de Coisa (com seu respectivo número), foi a inspiração principal para eu organizar o projeto em Fragmentos. Musicalmente passo longe da concepção do maestro, mas vejo a inspiração para além de uma fidelidade musical.

O jazzista/pianista Sun-ra, vindo lá de Saturno, me deu tranquilidade nos momentos em que a musicalidade parecia se perder em fluxos de consciência através de meus improvisos pouco técnicos. A liberdade que ele teve de se colocar como um músico de outro planeta, me incentivou a livre criação e desenvolvimento de uma linguagem própria, mesmo que não convencional.

A pianista Carla Bley também foi de muita importância para a composição dos fragmentos. Sua relação síntese rítmica; o minimalismo “malandro” em seus arranjos, me sugeriram muitas ideias que se concretizaram em Fragmentos ou não.

Madlib foi o cara que me deu a ideia da mixagem, das texturas; das sujeiras no som. É dele que vem a experimentação e mistura de samples com gravações próprias: O processo eletroacústico focado em timbre e ritmo urbano contemporâneo.

O projeto enxerga a música como uma fórmula matemática perfeita. Como o experimentalismo se encaixa neste contexto?
Toda a música gravada é uma fórmula matemática perfeita, se pensarmos em disco de vinil, tape ou computador – os acertos matemáticos estão presentes.
Quando apresento cada um dos Fragmentos seguidos de um número simples divisível por 8, não compreendo a matemática como o cerne do trabalho, apenas relaciono a questão de organização musical de cada um desses fragmentos, pois, pensando em teoria musical; todos os Fragmentos foram compostos em compasso 4/4 e, a progressão de evolução e retorno harmônico se baseia em 8 compassos que se repetem até o final; não apresento um tema melódico que evolua para algum outro ponto – podemos dizer que os fragmentos não saem do lugar, são redundantes sozinhos, um ciclo infinito de pequenos motivos livres.   
A experimentação se apresenta como ruptura, como intervenção de aceitação do imperfeito nesta organização precisa do plano eletrônico.

O projeto não tem um tema definido, fica a critério do público a interpretação. Mas no processo criativo, o que foi levado em consideração?
Tudo que me fizesse sentido, o que me parecesse verdadeiro. As influencias externas tiveram um papel fundamental nos 8 anos de realização.
O processo foi guiado por mudanças de espírito/temperamento, descobertas em leituras, no cinema e, no trato com as pessoas no trabalho de professor de música. É difícil explicar o processo criativo, pois ele não é linear, mas posso brincar dizendo que “a natureza ama ocultar-se”.

As declamações na música são fragmentos de uma obra pronta ou criações próprias?
Tudo, do pouco que é dito, é amostra de algum lugar. De filme, entrevista, disco...
São coisas que apareceram durante o processo e bem se fazem como referência direta, por exemplo:
No Fragmento 16 , o piano elétrico, que segue toda a música como um remix, é uma amostra extraída da pianista e harpista Alice Coltrane, da música Om Supreme, do álbum Eternity (1975). Na introdução temos alguns sons dispersos que são do álbum Om (1965), de John Coltrane, mixados a um poema recitado de Torquato Neto (Marcha à Revisão - terceira parte(3-PS)), que foi extraído do extinto programa de reportagens Documento Especial: Torquato Neto, O Anjo Torto da Tropicália – 1992. E no final  temos a fala emblemática de Walter Franco em entrevista ao programa Provocações.

Posso dizer que me aproprio dessas amostras ou, que elas se apropriam do que faço. Neste exemplo citado, a relação entre as personalidades aconteceu sem uma prévia intenção, simplesmente eles se juntaram pelo processo criativo. Em outros casos fui mais pontual, por exemplo no Fragmento 40, em que o trecho inicial foi extraído do filme Oldboy (Chan-wook Park - 2003) e a música se desenvolveu a partir desta amostra. No Fragmento 48 onde o trecho final foi extraído do filme Terra em Transe (Glauber Rocha - 1967) e a música foi concluída.

O que o Agnostic Orchestra se propõe em apresentar para o público?
Humildemente; um espetáculo autoral poético e musical dinâmico – intercalado entre poemas, canções e temas instrumentais.  Muita coisa será improvisada, enquanto outras; severas em seu arranjo.

O projeto traz ineditismo nas performances ao vivo?
Toda performance é inédita, mas em relação a estrutura de palco e interações, intervenções e intenções artísticas; não vejo nada do que proponho como “nunca feito”,  prefiro a ideia do não convencional.

A música eletrônica abre espaço para o experimentalismo. O que isso acrescenta ao processo criativo e ao resultado final?
O envolvimento com a arte em geral, tendo uma intenção clara ou confusa, é que vai definir o nível de experimentação, e seu valor no resultado final. Vai de cada um, de cada conceito, de cada interesse com aquilo que se faz. Podemos pensar que; o que para alguns é fracasso, para outros é um caminho ou, talvez apenas o sinal de um caminho.

No meu caso, a música eletrônica veio como a solução dos meus anseios criativos – do querer fazer música, mesmo sem saber – seguindo a intuição, a experimentação, pesquisa; buscando uma sonoridade própria que pudesse me satisfazer.


A música eletrônica acrescenta muito na criatividade e possibilita recursos infinitos para a criação de qualquer gênero musical,  mas ainda é preciso um ser humano para controlar a máquina, e isso faz toda a diferença no resultado final. Digo que valorizo quem faz, não como faz.

+ Escute aqui. 

segunda-feira, 7 de abril de 2014

SONORIDADE, IMAGENS E ALGORITMOS: CONHEÇA O PROJETO MINDSCAPES, DE FERNANDO VELÁZQUEZ

Fernando Velázquez traz ao Kino Beat o projeto Mindscapes. O artista uruguaio já percorreu o Brasil e o mundo arrecadando prêmios por onde passou. O projeto que combina música e vídeo tem como ponto de referencia a atividade cerebral. 

“Mindscapes é na verdade uma grande viagem pessoal ao meu imaginário, a forma como me relaciono com o mundo, com as imagens, com as coisas”, conta Velázquez em entrevista ao blog.

Ficou curioso? Vem ver:

Como surgiu a ideia do projeto Mindscapes?
Um dos tópicos que tangência minha pesquisa artística é a percepção, o modo em recebemos, analisamos e interpretamos o mundo.

Lendo o Oliver Sacks, o Antonio Damasio, e outros me surgiu a idéia de trabalhar a ideia de paisagens mentais desde uma perspectiva estética.

Como funcionam as imagens generativas?
Quando nós utilizamos um software de computador criamos arquivos, cada vez que abrimos estes arquivos estes se nos apresentam da mesma maneira que os deixamos a última vez que os salvamos. Este comportamento tem uma certa analogia com a materia. Poderíamos dizer metaforicamente que apesar ser compostos de invisíveis 0 e 1, eles existem como matéria, estão ali arquivados e vão se comportar sempre da mesma forma. Nos processos generativos o que existe é um script ou algoritmo que é rodado em tempo real, o arquivo em se responde também a analogia antes proposta, mas o que ele produz não, terá sempre um comportamento diferente. No caso das imagens generativas de Mindscapes, as mesmas surgem de manipular parâmetros de um algoritmo pré-programado. Trabalha-se neste caso mais do que com o conceito de edição, com a ideia de emergência onde no lugar de reorganizar o conhecido o artista explora o desconhecido, ou melhor, o possível dentro daquele algoritmo que ele programou.

Como a arte e os algoritmos, que em princípio são campos distintos, se relacionam neste projeto?
A relação da arte com a tecnologia do seu tempo é uma constante histórica. Falando especificamente em bits e bytes há mais de 40 anos de história da arte realizada com computadores. Não há nada em particular neste sentido no que remete à performance.

A atividade cerebral é o ponto de referência para o projeto, como a sonoridade e as imagens se encaixam neste contexto?
Nesta série me interessa traçar analogias entre o comportamento do cérebro e a estética. Não há um interesse literal em traduzir um no outro. Eu não utilizo dados nem medições em tempo real por exemplo. Neste sentido há uma série de equipamentos e todo um imaginário com base na realidade (topografias, raios x, etc). O meu interesse é utilizar metaforicamente esta estrutura (o conceito de rede neutral sobre tudo) para explorar estas ideias em forma de audiovisual.

O que o Mindscapes se propõe em apresentar para o público?
Acredito que a arte esteja no mundo para nos ajudar a entender as nuanças, as sutilezas e a complexidade do mundo em que vivemos. Sempre que eu apresento um trabalho artístico aspiro a tocar o espectador de forma a que ele questione as próprias crenças, intento provocar outros pontos de vista sobre este o aquele assunto. Mindscapes é na verdade uma grande viagem pessoal ao meu imaginário, a forma como me relaciono com o mundo, com as imagens, e com as coisas.

quinta-feira, 3 de abril de 2014

DO RUÍDO (NOISE) À MÚSICA ELETRÔNICA ATUAL


A música como conhecemos é um privilégio dos dias atuais. Nossos ouvidos podem reconhecer milhares de sons diferentes e combiná-los de forma harmônica. A variedade de sonoridades aumentou gradativamente com a industrialização – e o mundo nem sempre foi um lugar tão barulhento. 

L'arte dei rumori (A Arte dos Ruídos) foi escrito por Luigi Russolo, em 1913, e fala exatamente sobre isso. De acordo com o italiano, os primeiros ruídos surgiram no século XIX, com o surgimento da máquinas industriais. Antes disso, o mundo era quieto – não silencioso. O som que pontuava a terra vinha de atividades naturais como a chuva e cachoeiras, mas não era prolongado, constante ou variado. 
Russolo atribui a evolução musical à multiplicação de máquinas. A música caminha para uma polifonia mais complicada à medida que a variedade de timbres e tons crescem – o que encorajava os músicos à criação. 

Artistas experimentais como John Cage e Pierre Henry consideram Russolo o precursor da música eletrônica contemporânea. E para provar sua própria teoria, Russolo construiu os instrumentos para a sua orquestra, Intonarumori.

A partir do estudo A Arte do Ruídos, a música passou a ser vista e pensada de maneira diferente. Russolo sugeriu que o homem moderno tem grande capacidade de apreciar sons mais complexos. E ele estava certo. 

terça-feira, 1 de abril de 2014

ORQUESTRA DE UM HOMEM SÓ: CONHEÇA A ORQUESTRA VERMELHA, PROJETO DE MATHEUS LESTON


Propor uma junção entre imagem e som, gerando uma sensação única. Essa é a proposta de Matheus Leston e o seu Orquestra Vermelha, projeto que se apresenta no Kino Beat na noite do sábado. A Orquestra é, na verdade, um quinteto, mas apenas um dos músicos está no palco. Os outros são sombras, exibidas em tamanho real em grandes telas de LED.

Batemos um papo com Matheus, que nos contou como nasceu o projeto, e como funciona o seu processo de composição musical e imagética. “A experiência é de uma banda tradicional, pois parece que os músicos estão no palco (tanto por causa do som quanto da imagem). É música eletrônica, mas não é”, afirma.

Ficou curioso? Chega mais:

Como surgiu a ideia do projeto Orquestra Vermelha?
A Orquestra Vermelha é o desenvolvimento de uma pesquisa que eu já havia começado em um outro projeto, chamado Ré: um show em que eu gravava e sobrepunha uma série de loops de guitarra, baixo e teclado, construindo as bases ao vivo. As melodias eram cantadas por outros músicos que haviam sido gravados e filmados em suas próprias casas, exibidos em duas grandes telas de projeção.

Quais foram as principais inspirações para o projeto?
Puxa, é muito difícil falar em inspirações diretas. Ele é o cruzamento de muitas coisas que tenho visto e pensado há muitos anos, tanto da música como de outras áreas e artes. Talvez eu possa citar como referências conceituais mais claras a geometria e a ocupação do palco do Kraftwerk, tocar na contra luz de maneira similar ao The Mole Show, dos Residents. Talvez a influência estética mais forte seja das artes: o minimalismo americano, Olafur Eliasson, Kurt Hentschlager. Musicalmente a coisa fica impossível de definir. Vai de Massive Attack a King Crimson, de música erudita a free jazz, de Motown ao pós-rock.

O projeto questiona a significância da apresentação ao vivo hoje em dia. Referente a esta discussão, pode-se chegar a alguma conclusão?
Na minha opinião não há uma conclusão, não há uma resposta, pois não acho que haja uma pergunta. A Orquestra Vermelha está bem no meio de uma encruzilhada das relações entre áudio e vídeo, playback e ao vivo, presença e ausência, improvisação e estrutura, luz e sombra, figura e fundo, base e solo. Essas relações nem sempre são harmoniosas. Pelo contrário, algumas são contraditórias e problemáticas. Ao invés de se decidir por um lado ou outro, a Orquestra acaba se tornando uma espécie de paradoxo, tentando ser as duas coisas ao mesmo tempo. Por exemplo: é ao vivo e é playback. Talvez essa seja a melhor posição para evidenciar essas contradições. Minha única conclusão é que refletir sobre a forma de uma apresentação é cada vez mais importante.

Como funciona o processo de composição musical do projeto?
Assim que saiu o resultado do Programa Rumos (do qual o projeto faz parte) em dezembro de 2012 eu comecei a vasculhar meus HDs e juntar todos os rascunhos e anotações musicais que pude encontrar. Eu tenho grande dificuldade com composição, não consigo iniciar uma música, desenvolvê-la até o final e, em certo ponto, declará-la terminada. Acabo tendo ideias, gravando pequenos fragmentos e abandonando-os, sem nunca fazer nada com eles.

Eu selecionei, editei e trabalhei sobre os fragmentos que achei. No fim desse processo, tinha uma série de loops (e não músicas estruturadas) bastante simples. A partir dai começaram as gravações: apresentava esses loops para um músico, que gravava livremente sobre eles o que achasse melhor. Eu editava essa gravação e apresentava para o próximo músico, e assim por diante.

Depois das gravações dos seis participantes, eu ouvi tudo o que havia sido gravado e editei todo o material. Em muitos casos as músicas haviam se transformado totalmente e já não tinham nada a ver com a base inicial. E com todo o material editado, fiz várias experiências e versões até chegar na estrutura final do show.

E a composição das imagens do projeto, se deu de forma semelhante?
Os vídeos exibidos ao vivo são as imagens reais das gravações. Enquanto os músicos gravavam eles também eram filmados em frente a um fundo branco, na contraluz. Ao editar o áudio eu também editava o vídeo, para manter a sincronia. E com o show estruturado musicalmente, passei a trabalhar as imagens e definir as cores, criar alguns efeitos e programar a iluminação, que também é controlada ao vivo.

Qual a relação entre música e imagem no Orquestra Vermelha?
Eu parto do princípio que audição e visão são totalmente interligadas. Não tenho dúvida de que o som muda a maneira como nós entendemos uma imagem. E o contrário também é verdade: nós ouvimos de maneira diferente de acordo com o que estamos vendo. Por isso eu penso que um show é sempre uma experiência visual, mesmo quando não há efeitos cênicos, vídeos, iluminação. O próprio fato de ver um músico tocando faz com que a gente ouça de maneira diferente.

Na Orquestra Vermelha essa relação é levada ao extremo e posta em primeiro lugar. Os vídeos não são apenas um acompanhamento das músicas, eles são parte integrante do espetáculo.

A música eletrônica abre espaço para o experimentalismo. O que isso acrescenta ao processo criativo e ao resultado final?
A relação entre música eletrônica e instrumentos tradicionais também é uma das possíveis contradições da Orquestra. Não seria errado dizer que é um show eletrônico: estou apenas eu no palco com computadores. Todas as gravações dos outros músicos são samples digitais. Porém a experiência é de uma banda tradicional, pois parece que os músicos estão no palco (tanto por causa do som quanto da imagem). É música eletrônica, mas não é.

segunda-feira, 31 de março de 2014

O QUE É O KINO BEAT

Movimento+ Batida. Unir arte e música contemporânea. De uma ideia que parece ser incialmente simples, nasceu o Kino Beat, Festival que investiga a relação entre o som e a imagem. Kino vem da tradução em grego para movimento e do alemão cinema. Já Beat vem do inglês batida e ritmo do som.

O Kino Beat foi criado pelo produtor cultural e DJ Gabriel Cevallos com o intuito de explorar temáticas ligadas à imagem e à música contemporânea. Além disso, o Kino ainda pretende debater e estudar os desdobramentos da arte digital, como a tecnologia de imagens generativas, e, no som, experimentações de música orgânica e eletrônica.

O projeto nasceu em formato de mostra cinematográfica em 2009, já sob a curadoria de Gabriel Cevallos, criador do projeto. Em 2014, a primeira edição do Festival vai revelar atrações inéditas na capital, como Opala – banda formada por Lucas de Paiva e Maria Luiza Jobim, filha do mestre Tom Jobim – e o premiado artista Fernando Velásquez, uruguaio radicado no Brasil.

Para entender melhor a iniciativa, conversamos com Cevallos, que explica melhor a ideia do projeto.

O Kino Beat nasceu de uma inquietação tua? Da onde surgiu a ideia de fazer o Festival?
A marca Kino Beat nasceu em 2009, quando eu trabalhava como estagiário na CCVF - Coordenação de Cinema, Vídeo e Foto da Secretaria Municipal de Cultura. Fui instigado a fazer um projeto em que eu pudesse coordenar, e foi quando nasceu a Mostra Kino Beat de filmes relacionados a música eletrônica.

No ano seguinte, saí da CCVF mas o projeto continuou com mais 2 Mostras de Filmes, já abertas ao universo da música como um todo. Paralelamente surgiu o Kino Beat ao Vivo, projeto de performance audiovisuais, em formato de show, espetáculo, com experimentações entre som e imagem. O Festival é uma evolução da programação e formato do que começou em 2009, centrando nessa 1˚ edição somente em shows, mas para as próximas edições já pensamos na exibição de filmes, palestras, exposições. Mas sim, ele é fruto da minha inquietação de querer trabalhar e expor um conteúdo de arte alternativo na cidade, de ser um espaço pra quem goste de se surpreender, conhecer artistas e propostas artísticas que busquem a novidade na invenção.

E quais são os maiores desafios do Festival?
Além dos mais diretos que é realmente sair do papel, ter grana pra fazer e espaço, por isso esse parceria com o SESC POA é tão imporantente, é transparecer de forma clara e objetiva suas intenções para um público novo e pro próprio público já iniciado. É ser visto como uma plataforma séria de proposição cultural pra cidade, a de oferecer algo para o povo que não seja o de sempre, e ter um espaço cada vez maior pra isso, seja na mídia ou no imaginário das pessoas.

Como foi a recepção do público na primeira mostra? Qual é a tua expectativa para a primeira edição do Festival?
Todas as 7 edições entre Mostra KB e KB ao Vivo foram sempre muito boas, seja de público, proporcional ao seu tamanho, e até de mídia. O interesse sempre veio com bastante curiosidade e aceitação, principalmente de quem já consome esse tipo de arte, que é carente de ações parecidas na cidade. Minha expectativa é ótima, o projeto cresceu e com isso a programação pode ficar um pouco maior também. Nomes de fora, atrações relevantes, isso movimenta a ceninha um pouco. A previsão de ao menos mais 2 edições ao longo do ano já confirmadas e a possibilidade de mais outras também me anima bastante, por deixar o projeto ativo e vivo o ano todo, movimentando cada vez mais a cidade, ampliando público e a marca.

Quais são as influências do Kino? Em que Festivais gringos ele se espelha?
As influências são muitas, tão grande quanto o mundo da arte pode ser. No meu sonho o KB pode se tornar como uma grande bienal onde todo tipo de manifestação de arte pode aparecer. Mas voltando pra terra, me espelho em festivais como Transmediale, Mutek, Sónar e os brasileiros Multiplicidade, Live Cinema, Novas Frequências e muitos outros.